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20200928 – Tônica da Semana: Adaptabilidade e Equilíbrio aos Novos Tempos

28 de setembro de 2020 às 16:28 Por Postado em Blog do Eliseu

Adaptabilidade e Equilíbrio aos Novos Tempos (by Eliseu Mânica) 

Estou escrevendo esse texto aqui de Chicago. Depois de 3 anos volto para cá, rever a Bolsa de Mercadorias e Futuros de Chicago e ter aprendizados e contatos aqui. A realidade dos EUA, comparada com o Brasil parece diferente. Aqui a economia está reabrindo e a Flórida, por exemplo, através de seu Governador, Ron deSantis, irá reabrir restaurantes e empresas em sua plena capacidade (estavam funcionando com 50% da ocupação total). Em Chicago, vejo tudo natural, muita disponibilidade de álcool gel, indicadores no chão, lembrando de tomarmos distância social de 6 feets (ou seja 30 centímetros).

Saber mais acerca dos mercados, assim como a adaptabilidade e ao mesmo tempo manter o equilíbrio são, a meu ver, qualidades importantes para os investidores.

Na história dos investimentos, nunca tivemos como investidores, cenários tão voláteis como o ano de 2020. Tanto em cenário político, econômico e sobretudo em 2020: o biológico pesou muito! Tudo isso influenciou o mercado financeiro e dando uma olhada nos fundamentos e resultados das empresas e dos investidores, saiu-se bem aqueles que tiveram essa rápida adaptação. É como a frase atribuída à Darwin, mas que segundo estudos não seria dele, ““Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”. Esse está sendo o ano do investidor que realizou isso.

Mudanças no perfil das empresas, na forma de investir e dos investidores

Cada vez mais teremos mudanças nas empresas, na forma de investir e na personalidade do investidor. Primeiro quanto ao quesito de empresas. Com toda a “disruptividade” acontecendo, tínhamos empresas com uma vida útil muito maior que a atual. Isso é bom, porque cada vez mais o ser humano busca ser melhor, acredito pessoalmente que é por isso que vivemos, melhorar a cada dia, pessoalmente, fisicamente, mentalmente, profissionalmente e claro, como investidores.

Por isso saí de Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, morando em várias cidades e países, buscando melhorar como investidor, que é o que amo fazer. Com a busca constante de melhoria nesse cenário que vivemos, muitas empresas deixam de existir. Uma forma de ver isso é através da vida útil das empresas no S&P500. Em 1994 o tempo de vida útil no S&P500 chegou a mais de 70 anos…atualmente estima-se que essa vida ultill das empreas so índice caia para 14,4 anos em 2030, ou seja, cada vez mais diminuindo o tempo de sobrevivência nesse Índice, seja por falência, por diminuição de tamanho e expressividade, com o qual podemos ver abaixo:

Além disso, a questão digital vem acelerando muito e nessa pandemia tivemos empresas que perderam e as que cresceram nesse cenário, na qual podemos colocar as varejistas focadas na parte digital, como maiores ganhadoras. Essa tendência deve continuar como mostro abaixo, porém cabe ao investidor não esquecer que um ótimo investimento é aquele que alia uma ótima empresa com ótimo preço e muitas das empresas de varejo atual, já embutem taxas de crescimentos altíssimos nos seus preços de mercado atual:

Quanto à forma de investir um dos grandes avanços e que mais chamaram atenção nos últimos anos foram as criações de apps que facilitaram e democratizaram o acesso ao mercado financeiro, com custos baixos ou próximos de zero. Vale lembrar que “there´s no free lunch” … nada é de graça … o RobinHood, por exemplo, vende a ciência das ordens executadas para fundos quant que ganham dinheiro entrando e saindo rapidamente de posições feitas pelos clientes do app e isso é plenamente legalizado nos EUA.

Já quanto a questão de mudança de comportamento no perfil do investidor vem para sacramentar mudanças históricas. Essas mudanças têm ocorrido em alterações pela renda, educação, tipo familiar e região em que se vive o investidor, fatores que influenciam muito o comportamento do investidor.

O mercado de capitais teve como grande massa dominante, pessoas com mais idade, ricas, brancas do sexo masculino e qualquer movimento para democratização dos mercados foi atrapalhado pela Grande Depressão. Até o movimento atingido pelo momento em que os Babyboomers estiveram em idade de trabalho, é que o mercado começou a ser mais democrático, principalmente com fundos ETFs (fundos com baixo custo, criados principalmente por John Boggle que escrevi aqui sobre ele, na Série Grandes Investidores), mas que não atingiu plenamente os não brancos.

Geração X tendeu a imitar os seus pais, seguindo caminho similar…já os Millennials ao atingirem o momento pleno de época de trabalho, parecem criar um novo padrão no qual há uma participação cada vez maior de investidores pessoas física de todas as raças, centrada na compra e venda de ações de ações individuais. As quantias em valor hoje são menores, mas o longo impacto que esses indivíduos trarão, na economia e na sociedade como um todo, serão profundas.

No gráfico abaixo, podemos ver que classes que participavam menos do mercado de ações, estão começando a ampliar participação, principalmente em ações:

Além disso, a quantidade entre negros, hispânicos, latinos está aumentando o percentual de influência no mercado de ações, como podemos ver abaixo:

Podemos notar abaixo também que indivíduos com idade média de vida e com mais idade, estão vindo para o mercado acionário com mais força. Provavelmente, pelas questões que comentei acima, escalabilidade de aplicativos para investir com mais facilidade, menores custos, mudanças em termos de mindset e também a questão de redução de juros baixos, que diminui a atratividade de renda fixa e outros investimentos, além da disponibilidade recente e massiva de capital por parte dos bancos centrais e governos..

Cenários e investidores mudando.. incluindo aí um dos mais conhecidos e ricos do mundo: Warren Buffett!

Que o cenário mudou isso é claro, e o que corrobora isso é  a mudança de mindset de um dos maiores investidores de todos os tempos: Warren Buffett! Avesso à ações de tecnologia, surpreende para muitos o fato de que ele tem como maior posição, cerca de 40% no portfólio da Berkshire Hathaway, as ações da gigante de tecnologia Apple. Se ele adaptou-se, imagina nós investidores que ainda temos muito o que aprender!

Fui atrás para o que poderia ter chamado atenção do bom velhinho e o que mais me chamou atenção foi o fato do alto movimento de buyback shares (recompra de ações), por parte da Apple. Em 2017 eram cerca de 26 bilhões de ações em circulação e hoje esse número é de 18,5 bilhões de ações. Quase 30% (!!!!!!) a menos de ações com um lucro maior, ou seja, mais lucro na Companhia com uma menor quantidade de divisão, gerando mais lucro por ação para o investidor. Essa é uma combinação explosiva de retorno no médio-longo prazo e isso vem mantendo-se. Além disso, a marca que a Apple tem e a possibilidade de que seus produtos fiquem no inconsciente dos seus consumidores (incluindo os investidores também) é altíssima. Abaixo mostro essa diminuição nas ações da Apple em circulação, que disponibilizei em meu instagram (@eliseumanicajr):

Em resumo…

Temos uma mudança em andamento na maneira do investidor realizar investimentos, mudanças que incluem aplicativos mais facilitadores de acesso, mudanças de mindset, de idade de quem investe, nível social e que trarão consequencias para nossos investimentos. Até Warren Buffett viu isso no auge dos seus 90 anos, mudando o approach que tinha sobre ações tech, como a Apple e caberá a nós investidores perceber isso, adaptando-se a cenários cada vez mais rápidos de mudanças.

Um fato que pondero e que não devemos esquecer é o equilíbrio de mantermos nossas convicções, não ir por “modinhas” e ao mesmo tempo, saber quando uma tendência chegou ao fim. Essas mudanças serão cada vez mais rápidas para o investidor e essa sensibilidade será cada vez mais necessária!

Como modinhas e para finalizar, vejo o movimento atual de ações de crescimento vs valor (que continuam bem descontadas) e que, em momento de eleições presidenciais nos EUA (que afeta o mundo como um todo), mostra-se com disparidades ao meu ver. Essa diferença entre preço e valor aumentou recentemente, dado que tivemos um corte de juros grande por parte do Federal Reserve, um risco de inflação com a impressão de dinheiro massiva por parte dos bancos centrais mundiais. Essas são alguns dos principais fatores que podem ser explicados também como forma dessa disparidade entre investimento em crescimento vs valor, como podemos ver abaixo:

Por estarmos em um período de eleições presidenciais americanas, com uma expectativa próxima de uma vacina e volta controlada ao normal e uma continuação nos estímulos, esses fatores favorecem historicamente mais os investimentos em valor e isso que venho fazendo em minha carteira de investimentos e na Gestora que criei.

Mas e aí preço importa, Eliseu?

O que quis mostrar até aqui é que dado o cenário atual, é momento de focar onde tenhamos mais margem de segurança. O preço é fundamental ao investir. Comprar algo bem é o que vai definir o quão bom será a Taxa Interna de Retorno (TIR) do seu investimento. Focar em comprar barato e em momento de maiores crises como o atual é o ideal para um investimento. Mesmo ativos sem qualidades, mas que bem comprados, podem dar retorno positivo ao investidor.

Um exemplo são empresas praticamente quebradas, com prejuízos grandes aos longos do tempo e que negociam bem abaixo do valor, por exemplo, da vantagem tributária de aproveitamento desses prejuízos passados. Uma empresa com boa saúde, pode adquirir essa empresa deficitária pagando um valor menor do que poderá aproveitar como vantagem em impostos para ela (respeitando o limite atual desse aproveitamento). Até em empresas quebradas, pagando-se um preço ótimo, o investidor pode ganhar dinheiro. Mas lembro que esse não deve ser o seu foco, esse é apenas um exemplo.

É importante para você investidor não confundir comprar bem com ficar com dinheiro em caixa esperando eternamente. Conheço alguns amigos que saíram do mercado nos 70 mil pontos e estão esperando voltar até hoje.. ehehehe. Há sempre oportunidades no mercado e ao meu ver, a melhor forma de proteção é a diversificação e não estar 100% em caixa, como muitos defendem!

Abaixo mostro um estudo realizado nos Estados Unidos, País que moro atualmente. Nesse estudo mostra-se que a compra no “tempo perfeito”, traz pouca diferença para investir imediatamente e para o investimento corriqueiro ou compra de tempos em tempos, o popular “preço médio”. A diferença dessas estratégias é muito melhor que ficar em caixa. Isso que o período de estudo foi feito entre 1933 e 2012, via Charles Schwabb, uma das maiores aqui dos EUA. Imagine ficar com investimentos e m caixa agora, com juros perto de 0% nos EUA.

Nesse outro estudo do Business Insider é mostrada a filosofia Buy and Holder durante 30 anos. O retorno médio foi de 8,4% ao ano. Perdendo os 5 melhores esse retorno foi para 6,69% médio, em caso de perda d0s 10 melhores dias, o retorno foi para 5,61%; com perda dos 20 melhores dias, o retorno foi para 3,84% ao ano; com perda dos 25 melhores dias, o retorno foi para 3,06% ao ano..

Então, em resumo Eliseu…

  1. cenários de investimentos estão mudando rapidamente
  2. será cada vez mais importante saber seguir sua convicção e saber a hora de mudar o approach ao investir
  3. “Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”
  4. nunca tivemos uma diferença tão grande entre investimento em valor e growth;
  5. momento atual de eleições, provável vacina e estímulos, favorece o investimento em valor;
  6. uso uma mescla das duas escolas;
  7. mercados emergentes com múltiplos bem abaixo do que os países desenvolvidos, incluindo aí, especificamente a moeda Real que acho exagerada a queda;
  8. preço importa totalmente: até empresas quebradas, podem destravar valor com o tempo, mas o foco deve ser em ótimas empresas, com ótimos preços. Se nao der a primeira, foque no segundo;
  9. esteja no mercado, não tente adivinhar para onde ele vai;
  10. melhor forma de proteção: diversificação de ativos, ativos descorrelacionados na carteira e não ficar fora do mercado ou ficar totalmente com caixa!

Fico por aqui!

Era isso!!
Um grande abraço,
Eliseu Manica Júnior
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