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Opinião sobre o momento atual by Eliseu Mânica Júnior

18 de janeiro de 2021 às 14:12 Por Postado em Central do Investidor

O objetivo do texto aqui não é prever o que pode acontecer (até porque ninguém pode fazer isso), mas sim procurar mostrar o que venho fazendo em meus investimentos e os pensamentos que tenho para o cenário atual.

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Invisto desde 2005 e desde 2008 trabalho de maneira profissional no mercado financeiro, já passei por várias crises como investidor, sempre tentando aprender e evoluir, mas um fato é que quando estamos no meio de uma crise, imaginamos que a atual é sempre a maior que já vivenciamos. O que diferencia essa das demais crises é o fato de que não ela não ocorreu por um erro do mercado, como uma ruptura no sistema financeiro ou alguma alavancagem, por exemplo, como ocorreu no suprime e a alavancagem dos bancos em 2008, o que nos deixa claro que a atual crise é uma crise da natureza.

Em meus investimentos tenho a maior parte do meu capital nas empresas que fundei, em terrenos e na parte financeira, 90% do capital financeiro nos Clubes de Investimentos que a Gestora que fundei faz a gestão, ou seja, totalmente skin in the game. Esses clubes andaram muito bem no passado e nesse ano, como a maioria dos fundos, ele está de maneira similar ao Ibovespa de retorno.

Ingressei com um aumento de 40% do meu capital em março, alocando em ações, penso que o mercado brasileiro descolou-se como um todo, principalmente do mercado americano e os ativos brasileiros que mais subiram foram ativos tech, linkados ao varejo online e recentemente as commodities, principalmente carne, produtos agrícolas e minério, devido a recente recuperação Chinesa, deixando ativos do mercado interno brasileiro muito aquém em termos de retorno. O que penso é que em dólar estamos caindo cerca de 60-70% das máximas como um todo e que vários ativos em dólar estão a preços vistos no ano de 2005. Somado a isso, nossa moeda é a que mais cai no ano e nossa bolsa idem, sendo assim, se não for para investir agora no mercado de ações brasileiro, qual será o melhor momento?

Sobre o fato do investidor procurar uma proteção em ouro e com o grande incentivo monetário por parte dos bancos centrais, acredito que o ouro já subiu muito, além disso, a maneira que grande parte dos investidores do Brasil utilizam para investimento em ouro é o OZ1D e OZ2D, que já sobe mais de 50% no ano, além disso, há uma quantidade maior de contratos financeiros de ouro, acima do que existe de ouro físico disponível no mundo, ou seja, estamos comprando papéis ou cotações de ouro e não propriamente a moeda.

Com todo essa quantidade grande de dinheiro no mercado, chama atenção o fato de que a velocidade do dinheiro não vem acontecendo, devido a isso acredito que foi necessário uma injeção maior de dinheiro na economia, como podemos ver abaixo:

O bitcoin poderia ser uma alternativa ao ouro, mas como todo investimento é preciso termos uma noção de onde estamos pisando, realizando uma análise de investimento, um valuation de quanto vale um ativo e eu, tentando fazer essa análise o máximo que consegui foi fazer uma análise baseada no custo para produzir um bitcoin, através da mineração e do uso de eletricidade, cujo custo varia de país para país.

Uma diferença do bitcoin para outros ativos é que o bitcoin não produz dividendos como o investimento em ações, ou não tem possibilidade do recebimento de um aluguel como no caso de imóveis ou ainda o de arrendamento e produção em uma área de terra, por exemplo. Esses ativos suprem também a questão da inflação, pois são ativos “reais” e penso que tanto dinheiro sendo colocado no mercado, possa ocorrer uma inflação (exceto de que quanto mais passa o tempo, menor é a velocidade desse dinheiro,ou seja, diminui a sua circulação).

Visando agregar na troca de ideias, irei primeiro fazer uma retrospectiva do que aconteceu, a solução e remédio utilizado e posteriormente minha humilde leitura do que pode ocorrer no médio e longo prazo.

1)Crise do Corona Vírus: crise da natureza como mencionado, onde um vírus trouxe um choque na oferta e na demanda na economia. Não foi uma crise do mercado financeiro em si, mas um efeito da natureza que trouxe mudanças rápidas. Por exemplo, foi queda mais rápida do mercado financeiro e também a recuperação mais rápida. Por exemplo, as quedas que ocorrem em março e abril, utilizando os parâmetros de risco de janeiro, somente teriam a probabilidade de ocorrer em 2767 anos, ou seja, algo extremamente raro e único!!!

fonte: Perseva Asset Management – apresentação

A resposta pelos bancos centrais mundiais foi rápida, com vários países já endividados e mesmo assim, a saída foi a impressão de mais dinheiro e incentivos, tudo isso ocorrendo de maneira rápida e gigantesca, como podemos o balanço do FED, o Banco Central Americano, que cresceu cerca de US$ 2,7 trilhões, ou seja, mais de 50% em apenas 2 meses!!! Não somente o banco central americano fez isso, mas a maioria dos bancos centrais mundiais.


fonte: Bloomberg

A grande quantidade de dinheiro disponibilizada, foi devido ao fato de que a velocidade do dinheiro vem diminuindo, ou seja, demorando mais para estar disponível no mercado. Só para se ter uma ideia, em 2008 com os quantitative easings da época foram cerca de US$ 700 bilhões disponibilizados ao mercado inicialmente e agora temos mais de 4x!!! Com essa imensa quantidade de dinheiro despejada no mercado, grande parte acabou indo para o mercado financeiro e acabou gerando uma valorização dos ativos, incluindo na bolsa de valores.

Sendo assim, após uma queda rápida nas bolsas mundiais, tivemos uma recuperação rápida também, influenciando nos múltiplos das empresas americanas, como podemos ver abaixo:

Acima podemos notar que o Price-Earnings da bolsa americana forward (prevendo um ano a frente) está em 20,4x lucros anuais, enquanto a média é de 15,4x. Já em termos de Enterprise Value-Ebitda, a bolsa americana estaria como segue abaixo, recuperando os múltiplos pré-crise:

 

Uma das bolsas americanas, a Nasdaq, que é a bolsa onde são negociadas as empresas de tecnologia, está inclusive acima do patamar pré-crise:

Aqui cabe uma ressalva devido ao fato de que as maiores empresas de tecnologia americanas, devido ao momento de lock down que passamos e que ficamos mais em casa, tiveram suas vendas aumentadas, sobretudo as FAAMG (Facebook, Apple, Amazon, Microsof, Google “Alphabet”), como podemos ver abaixo:

Com o aumento nas receitas das FAAMG e devido ao peso que as mesmas possuem no S&P500, que hoje é de 21,38%, o que é muito alto, nos mostra o quanto elas influenciam atualmente o peso do Índice Americano.

Com tamanho peso das empresas de tecnologia é natural que elas “puxem” para cima o índice S&P500, como mostra a figura abaixo e o retorno de cada empresa FAAMG, comparando-as com o ìndice Americano:

Movimento similar ocorreu no Brasil, onde empresas linkadas ao setor de tecnologia e varejo online (ou que estão focando e transformando seu varejo online) tiveram uma disparada, como o exemplo de B2W, Via Varejo, Magazine Luiza, Carrefour, Lojas Marisa, que tiveram recuperações fortes comparadas com outros setores do Brasil, muitas das empresas acima com históricos de prejuízo e queima de caixa (B2W queimou cerca de R$ 645 milhões em caixa, por exemplo).

Como não temos empresas de tecnologia e varejo como os maiores pesos no Ibovespa, por isso não recuperamos toda a queda que tivemos, pois temos empresas mais ligadas à commodities e apenas recentemente com a recuperação da China principalmente, que tivemos uma elevação no minério, assim como commodities agrícolas, carne, etc.

2) Crise do petróleo: Não bastasse a crise do Corona Vírus, tivemos a crise do Petróleo com Rússia e Arábia Saudita entrando em desacordo e praticamente fazendo com que a OPEP entrasse em descrédito, perdendo união entre os seus membros.

Antes da crise o consumo diário era de 100 milhões diários de barris e tivemos uma queda entre 20 a 30 milhões de barris diários na demanda. Não bastasse a queda na demanda, tivemos ainda um choque na oferta, com a Arábia Saudita vendendo por US$ 6 a menos para o principal cliente Russo, a China, cada barril de Petróleo e aumentando a oferta em cerca de 13 milhões de barris.

Como efeito, ocorreu um descasamento entre oferta e demanda e o petróleo saiu de US$ 65 para US$ 30, castigando as empresas do setor. Um fato que nunca havia ocorrido é que os contratos futuros do petróleo foram para o campo negativo, onde o armazenamento mundial entrou em choque também e o custo aumento de US$ 20 mil para US$ 180 mil diários por navio, além de uma ocupação de 87%, acima da média histórica. Com isso, os contratos futuros entraram em campo negativo, com ninguém querendo ficar com a batata na mão, como podemos ver abaixo:

No Brasil tivemos uma queda também nas ações do setor, onde empresas como Petrobrás, Enauta e Petrorio sofreram quedas acima de 70%, trazendo oportunidades para os investidores.

Penso que esse é um setor que tende a recuperar-se, eis que as empresas brasileiras têm um custo menor que o patamar atual do barril, em US$ 30, além disso, várias empresas de shale já estão saindo do mercado e é uma questão de tempo que muitas outras mais saiam, eis que a cotação do petróleo WTI que é a indicação usada para o shale, está em patamar muito inferior ao do Brent.

Como comentado anteriormente, pelo fato de que o Ibovespa não ter peso muito grande de ativos linkados ao setor de tecnologia e varejo, onde Vale, Petrobrás e Itaú tem os maiores pesos, temos que ter uma atenção especial com a China, que é uma das maiores compradoras de commodities do mundo. Com o fim do lock-down Chinês e a recuperação de alguns indicadores antecedentes dessa economia, podemos ter uma recuperação mais pujante do índice de ações brasileiro.

3) Crise política e o Brasil: se não bastassem as outras duas crises, fomos produzir uma terceira crise, a crise política brasileira, iniciando com um Moro Day, trazendo insegurança para o investidor. Como comparativo, mesmo em ano de eleição presidencial americana, lá o Senado tem uma união maior, diferentemente do que estamos vendo recentemente aqui.

Com mais  esse risco, o que aconteceu foi uma desvalorização maior em nossa moeda, que tem uma cotação menor que a da Suzilância e que é que mais cai no mundo, como podemos ver abaixo:

fonte: Bloomberg

Além do mais, tivemos um corte agressivo na Taxa Selic recentemente e isso trouxe mais pressão em nossa moeda, pois antigamente era muito comum o mecanismo de carry trade (investidor estrangeiro captava mais barato no exterior,  por exemplo, a 2-3% ao ano e investia no Brasil a 15-20% ao ano) e isso deve diminuir muito, eis que agora a Selic está no patamar mais baixo da história.

Com a queda que tivemos em nosso juro, maior do que esperado e que surpreendeu o mercado, o dólar ganhou ainda mais força, fazendo que com as ações brasileiras ficassem ainda mais baratas, depreciando nossa moeda, favorecendo as empresas exportadoras, outro setor que acabou subindo fortemente.

Resumo do que penso sobre tudo o que ocorreu recentemente:

1) empresas tech e varejo on line subiram fortemente nos EUA e por possuírem um peso maior no S&P500, fez com que alguns índices recuperassem o patamar pré-crise;

2) no Ibovespa, o que mais pesa são empresas ligadas ao setor financeiro e commodities, e o ideal é olharmos para a recuperação da China, que já vem acontecendo, porém empresas do setor bancário estão com quedas de 40-50% e acredito que temos uma oportunidade nesse setor;

3) investimento em ações se faz em momento de crise, em momentos que não temos uma certeza no cenário, para quem procura essa certeza, certamente comprará bolsa a níveis muito maiores que o atual. Momento atual é de grande incerteza;

4) maioria dos investidores busca proteção em ouro, porém além do fato de que o metal já subiu mais de 50% no ano, há outro fato de que este não possui um valor intrínseco (não produz nada), além disso, maneira mais usada é compra de contratos financeiros e há vários indícios  de que o número de contratos é maior que o lastro existente do metal, o que traz um risco alto (maior quantidade de ouro negociado digitalmente, do que o que existe propriamente de ouro físico, o que não deixa de ser algo similar ao dólar e ao fim do padrão-ouro);

5) em dólar, a bolsa brasileira cai próximo a 70% e o Real é a moeda que mais se desvaloriza no mundo;

6) em momento de impressão de moeda por grande parte dos bancos centrais mundiais, ativos reais tendem a ter maior valor e são proteção contra inflação;

7) ìndice de Volatilidade atingiu o pico (não quer dizer que não possa atingir novamente), mas é um indício do receio que existe no mercado e isso dispersou-se, pelo menos momentaneamente;

8) mercado interno brasileiro tem oportunidades. Ativos negociados abaixo do valor contábil;

9) estamos com o menor patamar de juros da história. Podemos ter elevação no dólar e isso tende a permanecer, melhorando nossos resultados comerciais como País;

10) Retirado do Livro “Ações para o Longo Prazo”, do Jeremy Siegel, que mostra que entre ações, títulos públicos de longo e curto prazo, ouro e inflação, o que mais rentabilizou em 204 anos (obviamente, tivemos guerras e inúmeras crises nesses períodos, não apenas como a Crise atual), foram as ações de ótimas empresas, como podemos ver abaixo:

Era isso!!
Um grande abraço,
Eliseu Manica Júnior

Aqui quem vos escreve é o Eliseu. Desde o início da minha jornada no mundo de investimentos procurei ler, estudar e buscar mais e mais conhecimento. Hoje, passados 15 anos, sigo aprendendo, mas posso garantir para vocês que o que mais me ajudou nessa caminhada, foi estudar o que os grandes mestres, os grandes nomes, grandes gestores de mercado fizeram e ensinaram. Por isso resolvi compartilhar com vocês aqui no Bugg, o que aprendi e venho aprendendo. Espero que os ajude, assim como esses ensinamentos têm me ajudado a ser um investidor melhor.

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Intstagram: @eliseumanicajr

Twitter: eliseumanicajr

- Investidor, empreendedor, Sócio da Experato Agente Autonomo de Investimentos; - Columbia University – Macroeconomic Risks – EUA; - Babson College – Programa Internacional para Desenvolvimento de Empreendedores, Executivos e Acionistas – Babson – EUA; - MASTER Governança Corporativa e Valuation – BI International – 2014; - MBA em Mercado de Capitais – Fundação Getúlio Vargas (FGV) – 2010; - Analista Profissional CNPI-T (Certificado Nacional de Profissionais de Investimentos – Analista Ténico – Anbima); - Certificado de Especialista de Ativos (CEA- Anbima-2013);