A prisão de Lula, o cenário eleitoral, riscos políticos e seus investimentos


Nas últimas semanas o Brasil viveu mais um marco em sua história política com a prisão do ex-presidente Lula, o primeiro ex-presidente na história do Brasil a ser preso. Realmente um marco na recente luta contra a corrupção que tem havido no país. E agora, como serão as eleições? Quem poderá ser o próximo presidente? Será que Lula ficará preso? Como fica o cenário e riscos políticos para os investimentos?
Apesar de já ter sido condenado em segunda instância, ainda existe a possibilidade de em setembro, quando muda a presidência do Supremo Tribunal Federal (STF) e assume o Ministro Dias Toffoli, botar em pauta novamente questões relacionadas à prisão após condenação em segunda instância, havendo, então, possibilidade de Lula ser solto novamente. Por outro lado, existe também a possibilidade – remota, mas existe –  de o ex-presidente conseguir uma liminar para poder sair como candidato, o que poderia deixar o cenário eleitoral bastante conturbado. A princípio, Lula está inelegível pela Lei da Ficha Limpa, lei que foi sancionada por ele em 2010.
Num cenário sem o ex-presidente concorrendo, algumas pesquisas[1] já colocam Bolsonaro e Marina Silva como líderes de intenções de votos, com 17% e 15% respectivamente, enquanto candidatos mais de centro, como Geraldo Alckmin, aparecem com 9% de intenções de votos, segundo pesquisa Datafolha divulgada em 15 de abril de 2018. Contudo, por mais que o povo brasileiro venha clamando por mudanças, aparentemente cansado de governos de esquerda, Bolsonaro desponta como um potencial candidato, com uma equipe econômica que possui um viés altamente liberal, liderada por Paulo Guedes, um dos quatro fundadores do Banco Pactual e hoje sócio majoritário do grupo BR Investimentos, parte da Bozano Investimentos, uma das maiores empresas de investimentos do Brasil.
O que preocupa, no entanto, é que Bolsonaro defende uma linha mais de participação do Estado, enquanto Guedes defende a privatização de diversas empresas estatais, liberalização econômica, comercial, dentre outros pontos, que chocam com alguns ideais do pré-candidato Bolsonaro, suscitando dúvidas sobre a real possibilidade de se colocarem em vigor tais políticas. Bolsonaro em um evento do BTG Pactual disse que “não sabia nada de economia”[2], contudo, o nome de Guedes soa bem ao mercado, mesmo tendo um bom volume de incerteza sobre a “harmonia” entre os dois.
Por outro lado, o cenário político ainda mostra bastante cautela. Os principais nomes de pré-candidatos, Geraldo Alckmin (PSDB), Marina Silva (REDE), Ciro Gomes (PDT), Joaquim Barbosa (PSB), Henrique Meirelles (MDB), Rodrigo Maia (DEM), dentre outros, são os candidatos com maior intenção de votos e que possuem uma certa propensão à ideais de esquerda, o que gera maior preocupação ao mercado, principalmente pela possibilidade de que reformas de extrema importância sejam postergadas ou até mesmo que não sejam feitas, tais como a reforma da previdência, algo vital para o Brasil conseguir ajustar as contas e criar condições de investimentos.
Neste sentido, o otimismo visto recentemente com a prisão de Lula, com o avanço da economia, e com a potencial mudança no cenário eleitoral, podem sofrer uma correção, principalmente por essa precificação das incertezas no cenário político. Não se sabe se algum dos candidatos poderá ser acusado de envolvimento em atividades de corrupção em algum momento, como por exemplo Geraldo Alckmin, Ciro Gomes, Fernando Collor. Essa incerteza sobre o próximo presidente, e a reconfiguração na Câmara e no Senado são fatores de preocupação.
Digamos que Bolsonaro vença as eleições. Como será a governabilidade para ele dentro do Congresso? Será que conseguirá maioria para aprovar as reformas e políticas liberais propostas por Paulo Guedes? Se Marina Silva ou Joaquim Barbosa, que tem recebido votos antes direcionados a Lula, vencem, como será a política econômica? Como serão conduzidas as reformas necessárias? Será que haverá condições de governar e executar aquilo que o Brasil realmente precisa?
São justamente estas questões que geram um grau de incerteza bastante grande ao cenário eleitoral que se aproxima, além do fato de uma possível guerra comercial entre EUA e China, o fim do Quantitative Easing na Europa e redução de injeções de liquidez no mercado japonês, trazem um novo “quê” de incertezas para o mercado, levando a crer numa possível correção de curto prazo, podendo levar o Ibovespa ao patamar de 64.000 pontos, ou até mesmo aos 57.000 pontos.
Apesar de Lula aparentemente estar fora da corrida eleitoral, o Brasil, infelizmente, possui um histórico de rever decisões passadas da justiça, o que pode ainda gerar novas surpresas nos próximos meses. Infelizmente, no Brasil, até o passado é incerto, quem dirá o futuro. Com todas as incertezas pairando sobre os possíveis cenários eleitorais, vale a pena ter um pouco de cautela nas carteiras de investimentos, trazendo um pouco de proteção para as posições, seja através de exposição a ativos relacionados ao dólar, seja através de operações estruturadas para proteger de eventuais solavancos no mercado. Neste momento, cautela nunca é demais.
[1] Disponível em: <http://www.infomoney.com.br/mercados/politica/noticia/7377180/datafolha-lula-perde-votos-apos-prisao-sem-petista-bolsonaro-marina>. Acessado em 15 de abril de 2018
[2] Disponível em: <https://oglobo.globo.com/brasil/a-investidores-financeiros-bolsonaro-diz-nao-entendo-nada-de-economia-22375242>. Acessado em 15 de abril de 2018

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