Uma breve história do Petróleo e suas crises

A história do petróleo, o ouro negro, se confunde com a da nossa própria civilização, uma vez que desde os primórdios os povos do Oriente Médio, Egito, Mesopotâmia e China já haviam tido contato com o combustível fóssil, utilizado-o como betume, asfalto para pavimentação de estradas ou ainda, para iluminação, lubrificação. Além disso, foi utilizado para fins bélicos e até mesmo como laxante.

No entanto, a estória começa antes disso com a consolidação da vida na Terra, quando os mares transbordavam de pequenos seres vivos que se multiplicavam em ritmo alucinante, mas, também, morriam aceleradamente e assim, afundavam até o fundo do oceano, onde eram enterrados por sedimentos de argila antes mesmo de se decomporem.

Você já pode imaginar onde isso vai parar não é?

Agora, imagine quantos microrganismos foram necessários nesse processo para formar um galão de petróleo bruto?

Porém, não basta enterrar uma gigantesca quantidade de microorganismos para que a mágica aconteça. É necessário que eles estejam a pelo menos 2 mil metros abaixo para que o processo se inicie, e ainda assim, leva milhões e milhões de anos dessas movimentações, bem como a existência de tipos específicos de sedimentos que não são muito comuns para o petróleo acontece

Ficou interessado em saber mais?

 

Siga a leitura, e conheça a história do petróleo e suas crises.

São necessárias condições muito específicas de temperatura e pressão para literalmente cozinhar esse material orgânico, que só então se liquefaz e escoa por entre as fissuras e os poros das rochas.

Ainda assim, nada disso seria suficiente se todo esse material orgânico não encontrasse um grande reservatório entre as rochas, que só após tudo isso, é lacrada por uma camada de sal ou xisto a quilômetros abaixo da superfície.

E nesta breve introdução, parece ficar claro que o petróleo é uma espécie de milagre da vida, um milagre da natureza!

Contudo, existem lugares do planeta em que o petróleo simplesmente parece aflorar por entre o solo,  falo é claro, do Oriente Médio, onde existem os registros já citados da utilização do petróleo a 4.000 a.C.

Os chineses, inclusive, já perfuravam poços, usando hastes de bambu no mínimo desde 347 a.C., ou seja, muito antes do primeiro poço perfurado nos EUA pelo famoso Edwin Drake – que acabou levando a fama de inventar a indústria petrolífera, isso em 1859, iniciando uma nova era de industrialização.

A Febre do Ouro Negro 

Depois de extraído do solo e transportado para refinarias, o petróleo bruto é aquecido para que sejam separados os diversos componentes com pontos de ebulição distintos. A cada ponto do processo, surgem os chamados compostos petroquímicos, o quais são matéria prima para uma variedade infinita de produtos como fluídos de limpeza, pesticidas, as fibras sintéticas usadas no vestuário, tintas, medicamentos e o famoso material polimérico, que trouxe inúmeras facilidades à vida moderna, no entanto, tornou-se fonte de um enorme problema ambiental: o plástico.

O que mostra o quão errônea é a ideia mais comum de associarmos o petróleo apenas a geração de energia, combustíveis para os mais diversos maquinários, desde um simples cortador de grama até um transatlântico.

O fato é que a vida no século XXI está fundamentada na posse de bens quase sempre fabricados a partir de polímeros derivados do petróleo.

Com tantas finalidades, o consumo mundial de petróleo tem aumentado rapidamente desde os anos 50 até aqui. Em 2010,  se contabilizava um consumo anual de 34 bilhões de barris, sendo que um barril contém 159 litros de petróleo, faça a conta aí, se couber tantos zeros na sua calculadora.

O petróleo tornou-se, então, a forma mais amplamente utilizada de energia comercial. Junto com o gás natural e o carvão, representa mais de 80% da fonte de energia utilizada em todo o mundo. São os chamados combustíveis fósseis, pois os três possuem origem da decomposição de compostos orgânicos antigos.

Onde tudo começa

A indústria petrolífera surgiu em meados do século XIX, quando foi desenvolvido o processo de refinação do óleo na Escócia. O Azerbaijão era, nesse período, o maior produtor de petróleo, sua produção correspondia a mais de 50% da produção mundial. No continente americano, o petróleo foi primeiramente encontrado no Canadá.

No ano de 1859, iniciou-se a produção nos Estados Unidos por meio de um poço de aproximadamente 21 metros perfurado na Pensilvânia.

Em 1960, foi criada a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), composta por países que representam cerca de 25% das reservas mundiais de petróleo. O intuito da organização é fortalecer os países produtores de petróleo perante o mercado consumidor, restringindo a oferta e impulsionando os preços no mercado internacional.

E tudo relativamente ia bem, até o início da década de 1970, quando se descobriu que o petróleo era um recurso natural não renovável e estimou-se inicialmente que em 70 anos o produto se esgotaria.

Tal descoberta, é claro, fez o preço do petróleo triplicar no final de 1977, e foi quando a OPEP, passou a diminuir ainda mais oferta de petróleo, o que já ocorria desde sua criação, restrito, especialmente para financiar militarmente uma série de conflitos que ocorreram com os países árabes integrantes da OPEP.

Posso citar

  • a Guerra dos Seis Dias, em 1967;
  • a Guerra do Yom Kippur, em 1973;
  • a Revolução Islâmica no Irã, em 1979
  • Guerra Irã-Iraque, a partir de 1980.

Podemos destacar a mais grave de todas até então, a Guerra do Yom Kippur, que desencadeou o que ficou conhecido como o primeiro grande choque do petróleo.

O ano era 1973 e o conflito está relacionado à interminável desavença entre árabes x israelenses, desde a criação do estado de Israel em 1948 após o término da segunda guerra mundial.

Nessa guerra, Egito e Síria, que são países árabes, promoveram um ataque surpresa a Israel, justamente no dia do Yom KiPpur, o dia do perdão, comemorado em 18 de março, a qual é uma das datas mais importantes do judaísmo, onde os judeus tradicionalmente observam esse feriado com um período de jejum de 25 horas e oração intensa.

Acontece que nesse período, os EUA já possuíam uma economia totalmente dependente do petróleo, os poços texanos começaram a secar. Enquanto isso, o governo norte-americano aliou-se à Israel, no conflito contra os países árabes, na guerra do Yom Kippur e em resposta, os líderes árabes impuseram um embargo aos norte-americanos.

Com a lei da oferta e da demanda, os postos tiveram que elevar o preço da gasolina e as filas quilométricas de charmosos Cadillacs esperando por reabastecimento impuseram uma dura lição ao país sobre a fragilidade da economia embasada em combustíveis fósseis.

Em apenas 5 cinco meses, entre Outubro de 1973 e Março de 1974, o preço do petróleo aumentou 400%, causando reflexos poderosos nos Estados Unidos e na Europa e desestabilizando a economia por todo o mundo.

É justamente neste momento que coincide com o fim do milagre econômico, ocorrido durante a ditadura militar no Brasil. E esta crise do petróleo, infelizmente barrou os altos índices de crescimento do Brasil, que entre os anos 1930 e 1980, foi a nação que mais cresceu no mundo ocidental, acredite você ou não.

E os problemas causados pela crise, aqui no Brasil, foram fundamentais para a população começar a se rebelar contra o regime militar no país, subindo o tom das críticas e dando maior publicidade aos abusos que o governo encobria ao longo dos anos sob a alegação do crescimento nacional, financiado por volumosos empréstimos junto ao FMI, que futuramente estrangularam o país, gerando o maior processo inflacionário de nossa história e é claro que estou me referindo a hiperinflação das décadas de 80 e 90.

O primeiro deles ocorreu em 1956 , com a chamada Crise de Suez, também conhecida como Guerra de Suez (ou ainda Guerra do Sinai), que foi uma crise política, após Israel, com o apoio da França e Reino Unido, que utilizavam o canal de Suez para ter acesso ao comércio oriental, declarou guerra ao Egito.

Isso porque o presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser havia nacionalizado o canal de Suez, cujo controle ainda pertencia à Inglaterra. Em consequência, o porto israelense de Eilat ficaria bloqueado, assim como, o acesso de Israel ao mar Vermelho.

Após o início dos combates, as pressões políticas dos Estados Unidos, da União Soviética e das Nações Unidas levaram à retirada dos três invasores e o episódio culminou em uma humilhante derrota para o Reino Unido e a França, especialmente.

O segundo momento foi a já mencionada Guerra do Yom Kipur, na qual os países membros da OPEP supervalorizaram o preço do petróleo.

O terceiro ocorreu durante a crise política no Irã em 1979, conhecida também como o segundo choque do petróleo que desorganizou o setor de produção no país.

Este conflito, está relacionado diretamente ao Irã, que historicamente era governado por uma família, uma dinastia conhecida Reza Pahlevi.

Essa dinastia tinha forte ligação com a Inglaterra e com o ocidente de forma geral, desde a primeira metade do século XX. A grande questão é que em 1979, os islâmicos xiitas, tomaram o poder, liderados pelo aiatolá Khomeini.

Ao tomarem o poder, os xiitas derrubaram a dinastia Reza Pahlevi, e com a queda dessa dinastia e a presença de islâmicos xiitas no poder, o resultado foi bem previsível:

Os radicais que agora governavam o Irã, passaram a exercer uma forte pressão no mundo oriental e em função disso, houve uma enorme desorganização de todo o setor de produção no país, um dos maiores exportadores de petróleo do mundo, inflacionando uma vez mais todos os preços ao redor do mundo.

Logo em seguida à Revolução do Irã, travou-se uma guerra entre o mesmo país e o Iraque, o que ocasionou uma nova e expressiva redução na produção de petróleo, elevando novamente o aumento do preço do produto no mundo, já que os dois eram os maiores produtores e a oferta do petróleo ficou reduzida no mercado mundial.

Em 1991 teve início a Guerra do Golfo que gerou um novo momento de crise. O Kuwait foi invadido pelo Iraque, os Estados Unidos intervieram no conflito e expulsaram os iraquianos do Kuwait, que antes de sair incendiaram poços de petróleo de tal país causando uma crise econômica e ecológica.

O quinto momento de crise é muito recente, em 2008 movimentos especulativos de escala global fizeram com que o preço do produto subisse 100% entre os seis primeiros meses do ano.

Hoje

Por fim, a pandemia de covid-19, além de toda a tragédia humanitária que causou a morte de mais de 6 milhões de pessoas ao redor do mundo, gerou a maior crise do mercado mundial de petróleo em 30 anos.

O mercado petroleiro internacional finalizou o mês de Março de 2020, considerado o auge da crise sanitária, com redução de 30% no preço do barril de petróleo, a maior queda desde a Guerra do Golfo Pérsico, em 1991.

E mais recentemente, é claro, a invasão Rússia à Ucrânia, que fez novamente o preço da commoditie disparar, mas que em função de ainda estarmos em meio ao conflito, obviamente inviabiliza uma análise do tamanho do impacto da ação militar liderada pelo carniceiro Vladimir Putin, o que será possível somente daqui alguns anos, não é verdade?

Bom, mesmo com tudo que já foi dito, escrito e estudado sobre mudanças climáticas, o desafio realmente se resume ao triste fato de que os combustíveis fósseis são extremamente úteis, valiosos e importantes geopoliticamente.

Embora ouçamos cada vez mais sobre tecnologia verde, níveis de consumo ou crescimento populacional, deixar o combustível no subsolo é o cerne da questão e não nos parece haver real interesse em discutir seriamente esta possibilidade por nenhuma liderança global, o que infelizmente, nos leva a acreditar que teremos no futuro, outras crises do petróleo para narrar.

Eu espero que você tenha gostado deste artigo, se gostou, aproveite para seguir a Central do Investidor.

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